Artigo: Reduzir a inadimplência, sem frear o consumo

Por Frank Sinatra Santos Chaves*

As recentes declarações do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, a respeito do rotativo do cartão de crédito, geraram preocupação entre consumidores e empresários varejistas. É indiscutível a necessidade de encontrar mecanismos para diminuir a inadimplência nessa modalidade, que possui a linha de crédito mais cara existente hoje no país, com assustadores juros médios de 437% ao ano.

Porém, querer vincular a extinção do rotativo do cartão ao fim do parcelamento sem juros como alternativa para reduzir a inadimplência, beira o absurdo. Isso pode gerar consequências adversas tanto para consumidores quanto para comerciantes, impactando negativamente a economia e a inclusão financeira.

O parcelamento sem juros é uma prática amplamente difundida no Brasil e representa a principal alternativa para a população de menor renda, e para a própria classe média, adquirir produtos e serviços essenciais. Tal modalidade corresponde atualmente a 70% das compras feitas no comércio. Portanto, limitar ou eliminar essa opção vai afetar o consumo das famílias e colocar em risco a recuperação do varejo e a retomada econômica.

De fato, o endividamento no cartão de crédito é um problema grave, que prejudica o ritmo da economia. Mas a solução para diminuir a inadimplência não está em frear o consumo, mas sim em contribuir para uma cultura de consumo consciente, baseado no planejamento financeiro. Já basta a inflação corroendo nosso poder de compra. Não precisamos de outros dispositivos para inibir nossas escolhas enquanto consumidores.

E não para por aí. É necessário também reduzir a taxa de juros, para que mais pessoas tenham acesso ao crédito e as empresas possam investir com mais vigor nos negócios e, com isso, gerar emprego e renda, e tornar o ciclo econômico virtuoso.

Outra alternativa a ser considerada é o Cadastro Positivo, como o utilizado pelo SPC Brasil. Essa ferramenta pode contribuir muito para a concessão de crédito individualizado, com taxas que sejam mais equilibradas, pois leva em consideração a capacidade do consumidor em honrar seus pagamentos e, assim, premiar o bom pagador e inibir o inadimplente.

Por que não utilizar de mecanismos como esses para tornar o consumo mais eficiente? Até quando o mercado permanecerá penalizando toda a economia, sem sangrar a si mesmo?

Temos que lutar pela modernização equilibrada do sistema. As propostas para o fim do rotativo são bem-vindas e necessárias, mas não podem comprometer o sistema de vendas e de consumo no país.

 *Presidente da FCDL-MG

Share on facebook
Facebook
Share on linkedin
LinkedIn
Share on email
Email
Share on whatsapp
WhatsApp

Artigos relacionados